quarta-feira, 9 de março de 2016

Rio de Janeiro, 10 de março de 2016

Oi, mãe! 

Já fazem dois anos que você não tá mais aqui, pessoalmente, com a gente. Já. Como passou rápido, né?! 
Muitas das coisas que as pessoas falam é verdade. Com o tempo a dor vai acalmando, a gente vai aprendendo a conviver com esse espaço vazio e aprendendo, também, a preenchê-lo com coisas boas. Afinal, coisa boa foi o que você mais deixou por aqui, né! Não tem nenhuma lembrança tua que não seja alegre. 

Algumas coisas mudaram por aqui, sabia? O papai agora lava as cuecas, olha que vitória! Ele também aprendeu a fazer miojo e bife (ooooh!) e me ajuda a carregar as compras do mercado. Às vezes ele me diz que sabe se virar sozinho, mas essa parte eu ainda não confio muito, cê imagina. 

Eu agora tenho cozinhado bastante. Juro! Faço aquele feijão "carregado" que você fazia pra ele toda semana, às vezes faço sopa de ervilha, no Natal eu fiz até a ceia! Pernil, salpicão, pudim... Tinha que ser sua filha mesmo. Lembra que eu dizia que aprendia tudo só de ver? Então! hahaha
Uma coisa eu acho um pouco chata, confesso: lavar roupa. Isso eu deixo tudo pra máquina. 

Conforme você pediu, tô tentando ser feliz. Continuo saindo com os mesmos amigos de sempre. Todos aqueles que você ama. Poucos novos, só os do trabalho "novo" que você não conheceu. Eles são o máximo! 
As pessoas não vêm mais aqui em casa. Esse é um ponto que eles ainda não sabem lidar: vir aqui sem ter você. Se a gente já quase não recebia visitas antes, agora, então! Nadica. 

Eu voltei pro inglês e acho que ano que vem consigo fazer uma pós. Eu sei que cê deve tá reclamando que eu to há muito tempo sem estudar. Mas a vida agora mudou muito, é muita coisa pra dar conta, tá pesado. Mas com jeitinho as coisas vão acontecendo, fica tranquila. 

Agora estou de férias, desde aquela última que passamos juntas. Vou pra Paulo Afonso visitar nossa família. Todos estão muito felizes e não vemos a hora de nos reencontrarmos. Vai ser aquela choradeira, mas eu sei que você vai estar lá junto com a gente. O meu tio continua a mesma coisa. Some, não liga pra gente, mas vez em quando eu ligo pra saber como ele tá. Fomos conhecer a família nova dele no ano passado. Meu pai gostou, então você já conclui que foi legal, né (rs). As crianças estão ótimas! O Arthur e a Eloá devem casar logo e a Marjori tá namorando e se forma esse ano. Procuro falar com eles sempre. A tia Marcia segue daquele jeitinho maravilhoso dela. As datas comemorativas eu tenho passado com a tia Tereza. Sempre aquela festa de sempre e a Carol agora tem um menino, que você não conheceu, o Pedro. Você ia se apaixonar por ele, com certeza. 

Vez em quando vou a Bonsucesso ver os amigos antigos e a vovó. Fico na casa da Fernanda, às vezes. Tem algum tempo que eu não ligo pra minha madrinha, eu sei, preciso ligar. Erika e Luciana estão bem, sempre nos falamos. Nos vemos pouco, mas é a correria, perto das datas importantes sempre encontramos. 

Todo dia eu tento voltar pra casa e nos fins de semana fico lá pela zona sul. O Rodriguinho, a Marina e o CH me abrigam. Não sei o que seria de mim se não fossem esses três, viu!? Pode deixar, eu procuro ficar revezando pra não dar trabalho ou incomodar demais. Mas já são dois anos, to tentando ficar mais em casa e perturbar menos eles. 

Já sei, quer saber dos netos, né? Sem previsão, Dona Eulalia. Mas agora eu penso muito mais nisso do que quando você ainda estava aqui. Acho que é um bom sinal! hahaha

A saudade é imensa. Não tem um dia que eu não acorde ou não durma pensando em você. Me conforta muito ter a certeza que você está bem. 
Fica tranquila, modestamente, acho que to conseguindo manter tudo nos eixos.

Te amo, 
Bruna

sábado, 5 de setembro de 2015

torta de climão;

Eu não tenho problema em falar sobre a minha mãe. Nenhum. Posso contar tudo o que aconteceu, posso dizer tudo o que a gente viveu, posso falar sobre como é difícil a vida sem ela. Essa última opção é até a mais dura, confesso, porque é tudo muito novo e eu nem sei ainda o que vai ser daqui pra frente. 

Mas as pessoas não estão preparadas para ouvir. As pessoas não sabem reagir. O normal é a resposta padrão "tinha que ser assim" e derivados. Isso eu já sei! O que eu queria era poder ser ouvida. Sentar, falar tudo o que aconteceu e que tá guardado aqui, só comigo. As lembranças são duras e todos os dias tão aqui. Elas são minhas companheiras agora. Tem dias que elas trazem momentos bons, dias que trazem os mais difíceis, mas é a minha vida e vamo em frente. 

Parece que existe um bloqueio geral sobre falar da morte. Eu nunca tinha pensado nisso, obviamente, até passar e perceber que é um ponto que ninguém sabe lidar. É como quando não querem dizer "câncer" e dizem "aquela doença", sabe? Ninguém consegue encarar a única certeza que a gente tem na vida de frente. Só eu sei o que eu passei, a dor que eu senti, a saudade que eu acordo e durmo sentindo todos os dias, e tenho que guardar aqui comigo, por que as pessoas não conversam sobre a morte (ou sobre qualquer assunto ao redor). 

Conto nos dedos aqueles que vieram me perguntar como eu estava depois que tudo aconteceu - querendo/esperando que eu contasse a verdade. Em todos os outros casos, a minha resposta sempre foi "tá tudo bem", porque é o que deve ser socialmente dito. Ninguém espera que você responda algo diferente, e se você disser elas vão responder "imagino como é difícil, mas vai passar". Não é uma mentira, mas não é como quando a gente termina um namoro, que pode repetir a história pra todo mundo, várias vezes, que sempre vai gerar uma discussão de horas. 

Conhecer gente nova é outra certeza de climão. Se chega ao ponto de contar, já falo "olha, mas tá tudo certo. não precisa ficar com cara de sem graça. eu não tenho problema nenhum em falar disso". E assim encerra o assunto, porque, né, ninguém quer saber história triste por mais de dois minutos. Deixa pro teu terapeuta. Mais fácil. 

Certa vez uma amiga me mandou uma música que dizia "e meu anseio é forte, ou eu encanto a vida ou desencanto a morte" e eu percebi que alguém tinha conseguido entender o que eu não tinha compreendido até então. Essa minha naturalidade em lidar com isso deve servir pra alguma coisa. Mesmo que eu ainda não tenha descoberto e também não entenda, até hoje, como eu passei por tudo isso de forma tão tranquila. Mas se for pra desencantar, para que histórias lindas de vida sejam contadas e lembradas com amor, sem amarras e sem dor, devo estar no caminho certo. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

abraçar e agradecer;

Aprendi a gostar de Bethânia com a mamãe. Ela sempre cantava muitas  músicas dela. Gostava muito de “quando estou com você, estou nos braços da paz”, sempre cantarolava para mim. Primeiro show que tive o prazer de ver esse ano foi dela. A turnê, que chama “abraçar e agradecer”, me lembrou e reforçou, o tempo inteiro, a importância de simplesmente agradecer. Nada mais justo para um janeiro.
 
Hoje encontrei um dos médicos que operou minha mãe. Talvez o que tenha feito a cirurgia mais crítica de todo o período de internação dela. Até hoje eu pensava todos os dias que precisava ter coragem de voltar ao hospital para agradecer ao Dr. Antonio pelo ótimo tratamento que a mamãe teve durante a internação. Nunca consegui ter tempo (na verdade, coragem). Até hoje.

Eu voltava do almoço e o Dr. Antônio  descia a escada do prédio que eu trabalho. Corri até ele e chamei. Me apresentei, ele não lembrava de mim até que eu falasse do caso da mamãe. Ele lembrou e eu disse que só queria agradecer. Agradecer por toda atenção que me deu por tantos dias. Agradecer por todas as explicações que me deu do caso dela. Agradecer pelo leito que ficou guardado esperando que ela retornasse do CTI. Agradecer pelo seu empenho e coragem de ter uma profissão tão bonita e importante e, principalmente, por desempenha-la de forma tão humana. Agradecer. 

Certamente ele e a Dra Flávia não sabem da importância que têm na minha vida. Mas eu sei o quanto sou grata por ter encontrado esses dois (além de tanta gente querida daquele hospital) no meu caminho e a única maneira que posso retribuir tudo o que fizeram pela minha mãe é agradecendo. 

A minha felicidade de ter encontrado o Dr Antônio na rua e conseguido dizer alguns "obrigados" era tanta que não sei nem se ele conseguiu me entender ou se está me achando uma louca. Mas tudo bem. To muito feliz por esse encontro ter acontecido. 

Acho que Deus ta colocando muitas coisas boas nesse período que vamos completar um ano sem ela, para que essa dor seja mais leve. Obrigada. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

a vida é tão rara.

Muitas coisas acontecem na nossa vida pra mudar completamente o rumo dela. Eu nunca imaginei que fosse perder tão cedo a presença física da minha mãe, certamente quem tem a mãe ao lado nunca tenha - ou queira ter - pensado nisso. Acontece que perder alguém tão próximo me fez pensar (muito, todos os dias) no quanto a vida pode ser curta sem que a gente saiba. 

Hoje completa um ano que a mamãe foi internada. Algumas datas são bem complicadas. Nesse tempo que passou, de 12 de março até hoje, a única coisa que eu me preocupei em fazer foi: tentar ser feliz. 

Eu sabia que aquela dor ia me consumir, se eu deixasse, e eu sabia que não poderia deixar isso acontecer. Uma das coisas que minha mãe me pediu, enquanto estava no hospital, foi que eu continuasse sendo feliz independente do que acontecesse. Eu tinha que continuar assim por mim, por ela e pelo meu pai. Não é fácil. 

De uma hora pra outra eu me tornei responsável pela minha casa e por tudo que ela trouxe junto. Meu pai, contas, roupa pra lavar, compras pra fazer, etc, etc. É lindo quando você vai morar sozinho e sabe que pode ligar pra casa quando o dinheiro aperta que, magicamente, sua conta terá saldo positivo. É difícil quando é você e você. 

Minha mãe comandava nossa pequena família com maestria. Meu pai não sabia nem onde as calças dele ficavam guardadas no armário. E eu ali, voltando pra casa depois de cinco anos morando fora dela e lembrando de cada coisa que minha mãe fazia pra manter tudo do jeito que ela gostava. 

Os meses foram passado, a gente foi se adaptando e minha segunda maior missão - além de ser feliz - é fazer com que meu pai se acostume com essa nova vida da maneira que ele tenha o menor sofrimento possível. Pra ele é muito mais difícil que pra mim. São duas dores diferentes, incomparáveis e imensuráveis. 

Cada vez que chegamos em casa é uma lembrança, cada vez que abrimos a porta é outra. Parece que ela vai sair do banheiro ou surgir na cozinha a qualquer momento avisando que a comida já está ficando pronta. Mas não vai. Nesses momentos a gente esquece a obrigação de ser feliz e acaba deixando a saudade bater e aquela lágrima cair. 

Ontem eu deixei de pegar uma van na rua e fiquei esperando meu ônibus passar por muitos minutos. Quando peguei meu ônibus, ele parou num engarrafamento que tinha sido causado por aquela van que eu perdi. Ela bateu e derrubou um poste que ficou atravessado na pista. Eu poderia estar ali, como eu poderia estar em vários outros lugares no meio de algum acidente. Mas eu não sei, a gente não sabe. Então é obrigatório aquele clichê de viver cada dia como se fosse o último. 

Assim que a mamãe desencarnou, parecia que meu mundo tinha parado, mas continuava a ver tudo em volta rodar. Era um transe. Eu só voltaria ao mundo normal quando começasse a girar junto com ele e isso só ia acontecer quando eu quisesse. Com tanta gente maravilhosa em volta, eu não fui "deixada" muito tempo parada ali. Voltei logo pro ritmo e empenhada a encher minha mãe de orgulho todos os dias. 

Tem uma música que sempre toca na minha cabeça quando eu lembro isso da vida:
http://youtu.be/je-RTYbzoEk

A vida não para. 
A vida é tão rara. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

só.zinha;

Desde que me entendo por gente repito que meu sonho é ser independente. Sempre foi, mesmo. Nunca sonhei em casar, entrar na igreja vestida de noiva ou ter uma casa grande com muitos filhos. Isso nunca foi uma prioridade pra mim. Só que eu não sabia que era tão pesado. Pra mim era "só" não depender de ninguém. Ter as minhas coisas conquistadas com o meu trabalho e poder fazer o que eu quiser, quando e como eu quiser.

Hoje eu consigo entender o tanto que minha mãe se preocupava em me ver com alguém ou com um filho. Ela dizia sempre que não queria me deixar sozinha, já que não me deu irmãos. Se apegava aos meus namorados como se fossem filhos. Eu dizia sempre que ela não precisava se preocupar com isso pq eu nunca estaria sozinha, que tenho muitos amigos e a família. Hoje eu sei o que ela queria dizer. Por mais amigos que você tenha, você está sozinho. Por maior que seja a sua família, você está sozinho. Você só não está só quando tem seus pais ao lado (ou quando já construiu sua nova família - que é aquele momento que a mãe adora dizer "quando você tiver seu filho, vai me entender!"). São eles que vivem por você incondicionalmente. São eles que te atendem a qualquer hora do dia ou da noite só pra ouvir que você tropeçou numa pedra.

Hoje eu queria que meus sonhos tivessem sido mais "normais". Tenho a minha independência, minha família, muitos amigos, mas não tenho pra quem contar que tropecei numa pedra, que to com o nariz entupido, que comprei "aquele sapato que eu queria, lembra?". Nunca me senti tão sozinha tendo tanta gente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

natal;

Há um ano partíamos para a viagem mais esperada das nossas vidas. Pelo menos na minha e na dela. Comprei as passagens em agosto e consegui um bom preço para irmos os três. Era uma felicidade que não cabia em nós. Levar a mamãe de volta à cidade dela era um dos meus grandes sonhos. Sempre dizia para ela que um dia eu daria aquele presente. Custei a acreditar quando consegui. Na verdade, acho que só acreditei quando chegamos ao aeroporto para embarcar para Salvador. Vê-los chegando no terminal arrumadinhos para viajar já encheu meus olhos de lágrimas. Papai, que todo o tempo dizia que não ia viajar e que não gostava de andar de avião, até que estava animado. Mal sabia ele o tanto que voltaria apaixonado por aquela terra e toda a família da mamãe.

Descemos em Salvador e um primo que mora lá foi nos buscar. Partimos para Paulo Afonso só no dia seguinte. Mamãe não via Walter há anos que ela nem sabia quantos. Foi uma noite regada a algumas cervejas e muita conversa. Eu sempre fui muito ligada à família da minha mãe. Por maior que seja essa distância, meus tios e primos sempre foram muito próximos de nós por ligações, cartas e fotografias.  Além daquela ser a vontade dela, era um sonho meu se realizando. Os meus maiores sonhos sempre foram por eles e para eles.

No dia seguinte, Walter nos deixou na rodoviária e partimos para Paulo Afonso em uma viagem que cortava, praticamente, a Bahia inteira. O ônibus ia parando em todas as cidades. Não pregamos os olhos por nenhum minuto. Papai me mostrava a vegetação da estrada e me explicava cada plantação tipicamente nordestina, como uma imensa de caju em uma cidade que faço nem ideia do nome.

Chegamos em Paulo Afonso por volta das 18h. Meus tios nos esperavam na rodoviária. Foi aquele chororô que já sabíamos que ia ser. Mamãe só repetia para minha tia "para de chorar, Nana! não tem ninguém morrendo!". Ela nunca gostou de chorar. Seria capaz de contar nos dedos as vezes que a vi chorando. E todas elas eu chorava junto. Aliás, era uma ótima maneira de fazê-la parar. Bastava dizer "mãe, se você chorar eu choro também".

Papai em poucas horas se sentia em casa. Foi tão bem recebido que repetia sempre "imagina se eu não tivesse vindo?!". Pois é, imagina! No dia seguinte já partimos para a cidade de uma outra tia, a Vera. Pela primeira vez em 25 anos minha mãe voltava à terra dela. Dos cinco filhos que estão vivos, três estavam ali passando as festas juntos. As três filhas mulheres que minha vó teve. A gente não tinha como mensurar tamanha felicidade.

Foi um natal lindo. Trocamos presentes, as crianças estavam felizes como nunca e, pela primeira vez, eu tinha um Natal com a minha família. A minha, de verdade, de sangue, (quase) inteira. Sofríamos tanto em pensar que a distância não nos permitia viver aquilo sempre. Mas foi assim que a vida sempre quis que fosse, né?!

Mamãe viu quase todas as pessoas que fizeram parte da vida dela. Os tios que ainda estão vivos, os sobrinhos que ainda não conhecia, os filhos de alguns sobrinhos, os primos, os filhos dos primos, a melhor amiga e até o primeiro namorado (com toda a família). Foram dias muito felizes.

Passamos a nos perguntar se conseguiríamos viver ali, papai estava tão feliz que não queria ir embora. Pra completar tamanha felicidade, meu primo se casou logo após o Natal. Mamãe estava linda, radiante! Feliz e divertida como ela costumava ser e ali, entre a família dela. Entre pessoas que a viram crescer, que tinham participação na história dela. Chirley, a esposa do meu primo, afilhado da minha mãe, sempre repetia "como tia Lala é divertida!". Para eles, ela é Lala - com a primeira sílaba tônica.

Mamãe já sentia dores e chegamos a ir ao hospital em um dia. Como de "praxe", os médicos deram um remédio para cólicas e voltamos para casa. Minha tia Nana, que mais cuidou de minha vó durante a vida toda, estava preocupada. Dizia que as dores de dona Lourdes eram "mesmo assim". E deviam ser, de fato. As duas tiveram exatamente o mesmo diagnóstico.

Quando chegou dia 31 de dezembro, a animação do réveillon não era tanta. Nossa volta era no dia seguinte. A família de Tia Vera, que tinha vindo de Santana do Ipanema, já tinha ido embora e passamos a virada com a família de Amanda, então recém-esposa do meu primo. A comemoração foi na casa da minha tia. Acho incrível como a tradição da ceia muda de uma cidade pra outra. Lá eles não conheciam rabanada!!!!! Corremos a cidade inteira atrás de pão pra rabanada e quase não conseguimos.
Fizemos a alegria da ceia do réveillon! Todo mundo amou. Eu e mamãe éramos imbatíveis nas rabanadas.

Viramos o ano e logo no primeiro dia viemos embora. Almoçamos na beira do rio São Francisco e logo seguimos para o aeroporto. Papai já nem tinha mais medo de avião. Nos despedimos prometendo voltar.

Exatamente um mês depois que voltamos, mamãe foi internada. Esse certamente será um dos natais mais complicados da vida. A saudade é enorme e quando a gente acha que diminuiu, ela vem com tudo e derruba a gente de surpresa. Mas vamos seguir.

domingo, 20 de julho de 2014

aos amigos.

Que ingrata eu seria por deixar passar esse dia sem falar aos meus. Cheguei a comentar com uns “não tenho paciência pra essas coisas”. Talvez o domingo e todo peso da carência que tem, misturado ao meu amor e gratidão, trouxe essa vontade. Nunca fui muito dessas de ter poucos e bons, tenho muitos e maravilhosos. Sem modéstia. E sei disso, principalmente, por poder ter contado com todos no momento que mais precisei.

Os de escola continuam até hoje, misturados com os amigos do bairro, da rua ou do prédio. Não nos vemos mais com tanta frequência, mas quando encontramos é como se esse intervalo não existisse. (Cliché, eu sei, mas verdade). Voltam as piadas, as risadas, as lembranças da professora burra, do outro que foi expulso de sala e das colas.

Os atuais se misturam. Há sete anos uma comunidade no orkut me fez encontrar muitos que hoje são como minha família. É muito difícil responder quando as pessoas perguntam como nos conhecemos. Dizer apenas “pela internet” parece muito raso por tanta coisa vivida. Além deles, vieram os agregados e algumas famílias que sempre me recebem e acolhem tão bem.

Da faculdade são poucos, mas aqueles que sei que estarão comigo por muito tempo. Um torcendo pela realização do outro. É tão prazeroso dizer que aquele conseguiu aquela vaga que queria tanto! Tem os de “herança”, aqueles mineiros queridos que continuam me recebendo tão bem que ocupam um pedaço enorme no meu coração. Os de trabalho, aqueles que a gente convive intensamente por tanto tempo e depois perde o contato, mas que preenchem uma lacuna enorme nas tantas histórias que passaram. E, ainda, aqueles que de tão amigos já foram promovidos a primos, tios e sobrinhos (mais conhecidos como minha família escolhida – já que a minha de verdade vive tão longe).

Para cada um de vocês um obrigada gigaaaaante! Recebi tanto carinho, tanto afeto, tanto abraço, tanto cuidado, tanto amor em dias tão difíceis desse ano, que nunca serei capaz de retribuir ou agradecer o suficiente. Só tenho a certeza de ter muita sorte por ter cada um de vocês ao meu lado.


Feliz dia dozamigo (serve pra amanhã também)! Agora toca o Reginaldo Rossi pra embalar a breguitude! 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

cento e vinte dias.

Em nenhum momento da vida imaginei ficar sem você, mãe. Claro que isso é algo que a gente sempre pensa que vai acontecer num futuro muito distante, que não consegue nem imaginar. Hoje completamos quatro meses sem a presença física uma da outra, mas é incrível como eu sei que você está sempre aqui comigo.

Esses cento e poucos dias parecem uma eternidade. Não há um dia que eu não lembre tudo que passamos naquelas semanas de fevereiro e março. Eu e papai jamais poderíamos prever que sobreviveríamos sem você por mais de um mês. Ele agora lava as roupas dele e faz o prato sozinho! Eu tento deixar a casa como você sempre gostou, mas meu quarto tá uma zona por não ter lugar pra guardar todas as minhas coisas. Eu vou dar um jeito nisso, prometo.

Sabe aquela tosse que eu tenho vez em quando? Então atacou um pouco e só escuto o papai falando lá da sala “ta tossindo muito, hein, filha”. Você responderia daquele jeito “deixa a menina tossir!”. Não estamos deixando louça na pia para o dia seguinte, nem garrafas de água vazias. A dona Cida esta fazendo faxina a cada quinze dias e vamos mantendo tudo nos “conformes”, como você gostava de dizer.

Nossa rotina não teve muita mudança nas coisas práticas. A diferença agora é que papai não tem compromisso e sou eu que saio todos os dias para trabalhar. Inclusive, mudei de trabalho e queria muito que você estivesse aqui pra ver o quanto eu tô feliz por estar em uma área que eu sempre quis! Aliás, eu sei que cê ta vendo, né. Todos os dias o papai me busca no ponto de ônibus e voltamos juntos para casa. Uma vez por semana passamos no mercado e no caminho pra casa ele sempre comenta “todos os dias a mamãe fazia esse caminho cheia de compras”. Pois é.

São quatro meses que parecem cinquenta, me pego sorrindo ao lembrar do seu sorriso em cada coisa fazíamos juntas. Acho que estamos fazendo tudo do jeitinho que você queria, com muita saudade, mas sem lágrimas, como você sempre pediu. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

03.06.1958

Hoje mamãe completaria 56 anos. Aprendi a gostar tanto de aniversários por causa dela. Mamãe sempre gostou de festas e comemorações. No período que ela ficou no hospital, já planejava como seria o aniversário dela desse ano. Imaginava ela carequinha, por conta da quimioterapia, mas sorridente, como sempre. A casa cheia de amigos e todos muito felizes por ela estar ali, firme e forte. Seria uma grande comemoração, era o que eu mais queria.

Todo ano mamãe passava meses pensando no que fazer no aniversário. No fim das contas não fazia nada e “descontava” no meu. Por ela que eu comemorava tanto. Um dos maiores sonhos de dona Eulalia era ter a casa cheia de filhos. Como não pôde, ela adorava que meus amigos estivessem sempre por perto. Reclamava, claro. Mas gostava. Todos sabem. Por isso festa de aniversário era sempre bem-vinda! Ta aí o melhor motivo pra casa cheia.

Estamos quase completando o terceiro mês sem ela. Todos os dias escorrem algumas lágrimas de saudade que logo são tomadas por um sorriso que surge simplesmente por lembrar o quanto tive uma mãe maravilhosa.  Nesse meu primeiro 03 de junho sem ela, percebi que as comemorações nunca mais serão do mesmo jeito, mas acho que consegui passar um dia feliz, como ela pediu que eu continuasse.


Hoje a melhor amiga dela postou essa foto. Nunca tinha me achado parecida com a mamãe, até então. Mas esse sorriso mostra muito bem nosso jeitinho igual. E como eu fiquei feliz com isso! Que essa semana ela receba muitos brindes de parabéns e felicitações, pois tenho certeza que é assim que ela quer ser lembrada.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

quando decidimos doar.


Nunca tínhamos conversado sobre transplantes, mesmo com um caso exemplar que tivemos na família. Até que um dia, quando esperávamos para entrar no CTI para ver a mamãe, papai comentou “minha filha, se algo acontecer, acho que ela iria gostar se doássemos o coração dela. Imagina se uma criança receber, como ela seria feliz!”. Crianças sempre foram a paixão da mamãe.

Eu já havia pensado sobre doação desde que ela tinha entrado no CTI. Na porta do setor do hospital colocaram um cartaz enorme, justamente com uma criança pedindo a doação. Mas achava que seria complicado convencer o papai a fazer isso, até que ele me surpreendeu vindo com esse comentário.

Hoje um programa de TV falou sobre transplantes e ontem a novela também abordou o assunto. É de uma importância enorme as pessoas compreenderem que mesmo no meio de tanta dor, pode conseguir ajudar outra família. E foi nisso que pensamos quando falamos sobre o assunto. Respondi ao papai que sim, que se a mamãe pudesse, faríamos as doações. Infelizmente ela não podia. A equipe do Programa Estadual de Transplante (PET) concluiu que ela não era uma doadora em potencial depois da avaliação da morte cerebral. São vários fatores que levaram a isso, a própria doença de base, a sepse que se instaurou e também a quantidade de noradrenalina que ela passou a utilizar depois da parada cardíaca (informações que me passaram, não sei se totalmente corretas).


Uma das coisas mais lindas que minha mãe me ensinou foi a ajudar o outro, seja lá “o outro” quem for. A gente não podia colaborar com dinheiro, mas mamãe era aquela que guardava um pouco das quentinhas que fazia para dar aos mendigos que ficam na nossa rua. E isso valeu na hora de decidirmos sobre seus órgãos. Mamãe foi uma mulher tão feliz, tão boa, que a gente queria que isso tudo se perpetuasse de alguma forma. Imaginem que lindo seria mais uma pessoa com esse coração cheio de amor no mundo. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

domingo de páscoa.

Ontem foi um dos dias mais difíceis desses 40 dias. Chorei demais, senti demais, sofri demais. Minhas lágrimas caíam sem que eu pudesse controlar. Me falaram que seria por conta da páscoa, que nas datas comemorativas temos essa tendência de “lembrar” mais.

Fiquei lembrando das últimas “semanas-santas” que passamos juntas. De uns bons anos pra cá, passei a usar o feriado prolongado pra viajar. Ano passado fiquei em casa. Precisava terminar de escrever minha monografia e também era um momento de ficar mais próxima do pai e da mãe. Meu tio Paulo veio aqui no domingo e trouxe um ovo de Páscoa pra mim. Chorei que nem criança. Lembro da mamãe comentar o tanto que eu era chorona e eu falei pra ela que aquilo me lembrava a infância, dos tantos ovos de Páscoa que meu tio me deu antes de tanta mudança que ele passou pela vida.

Foi um dia feliz pela visita do meu tio, que já não vinha mais aqui com tanta frequência, e também era aniversário do Rogger, um vizinho nosso muito querido. Tinha churrasco em comemoração ao aniversário e eu me dividia entre ficar um pouco na festa e um pouco no TCC.

Sempre achei que mamãe acertou em cheio no tanto de “mimo” que me deu. Nem mais nem menos. Embora sempre achem os filhos únicos muito mimados. Mesmo sendo única e depois de tanto sacrifício (qualquer dia eu conto pra quem não sabe), eu sempre tive liberdade em fazer as coisas que eu queria. Mamãe era católica, mas nunca ligou que eu não estivesse em casa pra passar a semana santa. Ela costumava dizer “eu te segurei o quanto pude, agora a vida é sua”. Claro que ela sempre comentava o que tinha vontade, como reclamar que eu gastava muito dinheiro viajando, mas entendia que era o que eu gostava de fazer. Algo que ela também sempre dizia era “em você eu confio, minha filha. Não confio nos outros”, quando eu respondia qualquer comentário dela sobre meus passeios com “ta tudo certo, mãe. Confia em mim”.

E ela sempre confiou. Fomos muito amigas sempre. E somos. Dividia segredos com ela que o comentário era “seu pai vai morrer se ficar sabendo disso!”. E ela mesma dava um jeitinho de contar as coisas pro papai. Tomei muuuuuito esporro, mas poucas horas depois ela ligava e pedia desculpas. “Mamãe ta nervosa, cê sabe...”, dizia ela quase como o gatinho do Shrek. Sempre dramática. Com quem será que aprendi, né?

No nosso último Natal, pouco antes de viajarmos, ela veio me mostrar o que tinha comprado de presente pra levar pra família. Depois de mostrar tudo, veio correndo até a sala agarrada com um ursinho de pelúcia e disse “esse aqui é seu”. Eu ri e respondi que não precisava. E ela retrucou “É o meu coração que vai ta sempre com você”.





quarta-feira, 9 de abril de 2014

1 mês.

Hoje completamos um mês. Um mês sem a pessoa que mais amo na vida. Um mês sem receber aquele boa noite todos os dias. Um mês sem ter aquele abraço apertado quando chego em casa no sábado à tarde. Um mês sem ter arroz fresquinho no almoço só porque era assim que eu gostava. Um mês sem ouvi-la perguntar se escovei os dentes, se a roupa de cama foi trocada ou se tirei a lente. Um mês sem acordar e ver que ela ta ali do lado só me olhando dormir. Um mês sem ouvi-la dizer que vai largar tudo e vai embora. E mal sabia que iria tão cedo.

Os dias passam, mas não. A gente ainda ta ali, naquele corredor de hospital, recebendo notícias. Indo trabalhar, voltando pra casa, pegando ônibus, indo pra festas, mas ainda ali. Ainda vendo médicos, ainda sentindo medo, ainda inseguros. Os dias passam, mas é como se nós estivéssemos parados e só gira o que está ao nosso redor.


“Minha filha, se algo acontecer, quero que você continue sendo essa filha linda que você sempre foi.” Tá muito difícil, mãe, mas vou continuar fazendo tudo pra te encher de orgulho. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

contagem regressiva.

Diferente do esperado, depois de um dia cheio de esperanças e fé renovadas, tivemos uma surpresa. Na quinta, dia 06, cheguei cedo no hospital, como de costume. Fui tentar conversar com o chefe do CTI sobre minha volta ao trabalho e um possível horário alternativo para conversar com os médicos. Ele não estava e fiquei por lá aguardando a visita. Às 14h já estava junto com o papai para entrarmos no CTI.

Como sempre fiz, cheguei no leito dela com um sorriso de orelha a orelha. Em todos esses dias, aprendi (sem saber como, nem com quem) que tinha que estar muito feliz por poder estar ali, dividindo isso com ela, e que ela precisava me ver bem. E era isso que eu queria mostrar pra ela todos os dias: o meu sorriso mais sincero.

Dra Flávia apareceu, vinha da sala dos médicos do CTI, e não tinha uma cara boa. Fui abraçá-la e ela disse "Bru, você precisa ser forte. Sua mãe deu uma piorada. Teve uma parada cardíaca de meia hora hoje cedo e quase não conseguiram fazê-la voltar". Não sei definir minha reação. Não faço ideia de como deve ter sido a minha cara. Mas pra mim ela permanecia ali "bem", como antes.

Não contei pro meu pai. Esperei que a Dra Milena, intensivista do dia, contasse tudo pra nós dois juntos. Deixei que ele ficasse com a mamãe bem, sem aquele peso ou aquele medo que eu tinha. Ele não merecia.

Dra Milena nos chamou pra conversar e contou sobre a parada cardíaca. Por meia hora ela insistiu que a mamãe permanecesse ali pra nos encontrar na hora da visita. Nos disse pra aproveitarmos o máximo possível, pois uma nova parada ela não suportaria. Mamãe "voltou" com muita droga pra manter a pressão. Ficamos desolados.

Voltamos às 18h, pois a Dra Milena deixou que passássemos mais tempo com ela, pra aproveitarmos tudo. Nessa hora, ela comentou que mamãe permanecia estável, sem nenhuma nova intercorrência. Voltamos pra casa um pouco mais tranquilos, mas a sensação que a qualquer momento o telefone poderia tocar era cruel.

A previsão era que na sexta ela fizesse a traqueostomia e mais uma lavagem abdominal, que foram suspensas. Mamãe não tinha condição clínica para suportar qualquer intervenção cirúrgica. O fígado apresentou sinais de falência e os olhos dela estavam bem amarelados. Mais uma coisa começou a me preocupar.

Parecia que tudo o que tínhamos caminhado e vencido até agora estava chegando ao fim. Ao mesmo tempo que eu sabia disso, não deixei de acreditar nem um minuto que mamãe voltaria pra casa. Até que o intensivista de sábado foi mais duro comigo e com papai. Quando questionei sobre os danos cerebrais que a parada cardíaca poderia ter causado, ele foi direto "Bruna, sua mãe não vai voltar pra casa".

Papai chorou muito e eu só queria que o médico me explicasse o que acontecia. Pela experiência dele, era mesmo questão de alguns dias. A infecção ainda era localizada no abdômen, mas o fígado já estava numa situação bem complicada, podendo parar a qualquer momento, e aí era mesmo aguardar que as coisas fossem "parando". Nesse momento pensei no quanto os próximos dias seriam sofridos pra ela. É triste demais saber que você não pode fazer nada além do que já foi feito. Imagina você saber que a pessoa que te deu a vida está indo embora aos poucos, aos pedaços, órgão por órgão, sem que nada pudesse ser feito?

O câncer complicou toda a evolução ou melhora que ela apresentou nesse período. Mamãe esperava ficar boa, mas tudo era muito, muito, muito lento.

Quando chegamos no hospital, no domingo, vi que o nome da mamãe carregava um "*". Logo perguntei o motivo e o segurança disse que a médica iria conversar só comigo e com os familiares de outro paciente. Na hora já veio aquele desespero, mas passou quando uma enfermeira do setor saiu, perguntei se mamãe estava "bem" e ela me pediu pra ficar tranquila. Fiquei.

Dra Paula chegou antes da visita e me chamou. Entramos, sentamos e ela disse "Bruna, fizemos alguns testes na sua mãe ontem a noite e hoje e podemos afirmar com 98% de certeza que ela teve morte cerebral".

segunda-feira, 17 de março de 2014

tratamento intensivo.

Depois da cirurgia, o clima era bem tenso. Dr. Antonio passou por nós pelo corredor e avisou que já iria nos chamar para conversar. Nesse momento o papai já havia chegado ao hospital e minha tia Márcia também.

A conversa foi bem dura. Dr. Antonio explicou o que tinha acontecido, mamãe teve um "desabamento" do intestino, ou seja, o intestino despencou da colostomia e caiu na cavidade abdominal, ficando solto dentro da barriga. A atividade do órgão continuou normal, o que fez com que as fezes se espalhassem por todo o organismo. A situação se tornou bem grave. Mamãe saiu da cirurgia direto pro CTI e fomos vê-la logo depois da conversa. Ela estava lúcida e conversou pouco com a gente. Disse para ela que tudo já estava resolvido, expliquei o que tinha acontecido e pedi que ela ficasse calma pra que tudo pudesse ser resolvido o quanto antes.

Além disso, mamãe teria que passar por várias lavagens da barriga, pois agora ela tinha um quadro de peritonite, que é a inflamação daquela região. Não se sabia muito quantas vezes essas cirurgias seriam feitas, mas era isso que ia salvar a vida dela. Essas lavagens são realizadas para limpar a área da infecção.

Conforme os dias iam passando, as informações ficavam mais claras pra mim. Passava noites lendo artigos sobre todo e qualquer procedimento que era feito com a mamãe. Isso me deixava mais segura para conversar com os médicos e ter perguntas mais pertinentes ao assunto. Dois dias depois ela foi pro centro cirúrgico novamente, para a primeira lavagem abdominal.

Mamãe voltou desse procedimento entubada, não aguentou ficar sem o respirador. No dia anterior ela já tinha apresentado muita tosse e, caso ela permanecesse sem o aparelho, além do risco de ficar sem respirar, ainda forçaria ainda mais a barriga, região infectada.

Passados 15 dias de CTI, o primeiro esquema antibiótico terminou, mamãe permanecia entubada e nos foi pedida uma autorização para fazer a traqueostomia. Ela tinha respondido bem ao tratamento, mas a sepse ainda estava presente. Como não tinha previsão de tirar o respirador, era melhor que fizessem a traqueostomia para que ela tivesse um bem estar melhor. O esperado, agora, era que ela começasse a melhorar.






sábado, 8 de março de 2014

enfermaria 53.

Na enfermaria as coisas ficaram mais tranquilas e tinha a sensação que tudo ia se ajeitar. São oito leitos na sala e uma equipe de enfermagem 24h. Os médicos fazem a visita pela manhã e depois conversam com a família, caso tenha necessidade.

Pedi autorização pra ser acompanhante da mamãe e a enfermagem liberou. Era uma quinta e fiquei com ela no hospital até umas 22h. Estava pronta pra dormir, mas ela, obviamente, não deixou. Sempre se preocupando mais comigo do que com ela. Eu tinha que trabalhar no dia seguinte e ela queria que eu dormisse direito em casa.

Os dias foram seguindo e eu vi a necessidade de ficar com ela naquele momento. Mamãe precisava de mim e se eu estivesse longe não teria como conversar com os médicos e acompanhar a melhora. Pedi 10 dias de férias que tinha no trabalho e fiquei revezando com minha tia e minha vizinha até o dia 17 de fevereiro, uma segunda.

Entre os dias 17 e 18 passei a noite com ela. Mamãe sempre muito ativa, não tava aguentando mais ficar naquela cama. Não encontrava posição pra dormir, passava a noite em claro, não tinha mais rivotril que desse jeito naquela ansiedade de voltar pra casa. No meio da noite ela pediu que fossemos limpar a sacolinha da colostomia - que eu já tinha aprendido a cuidar - e vi que tinha algo estranho, um líquido com uma cor roxa que muito parecia sangue. Voltamos pra cama e fiquei com aquilo na cabeça. Sabia que não era um bom sinal. Chamei a enfermeira, pois mamãe reclamou de dor, e comentei que as fezes estavam com uma coloração estranha. Pela manhã, fomos tomar banho e dessa vez a sacolinha estava completamente cheia de sangue.

Dr. Antônio Mateus é o chefe da cirurgia do hospital. Em um dos primeiros dias da mamãe na enfermaria tivemos uma longa conversa. Ele me explicou a gravidade do tumor, o quanto está avançado e os cuidados que teremos que seguir após a alta. Foi ele que chegou pra ver a mamãe no momento da hemorragia.

Aquilo tudo passa como um filme na minha cabeça. Foram algumas horas de muita tensão. Mamãe perdia muito sangue e já tinha um quadro de anemia, o que me preocupava ainda mais. Tentei manter o controle da situação o máximo possível pra que ela não ficasse ainda mais nervosa. Quando o Dr. Antônio chegou no leito, mamãe falou "Dr, me salva, eu to morrendo!" e ele, numa calma que deve ser característica da maioria dos cirurgiões, ou pelo menos deveria ser, disse "tem ninguém morrendo aqui, dona Eulalia! Fique calma aí".

Sempre soube que mamãe era uma pessoa muito forte pra dor (e pra um monte de outras coisas). Lembro de uma vez, devia ter uns 12 anos, ela teve bursite e sentia uma dor insuportável. Ela chorava na cama e eu, do lado dela, pedia a Deus que a dor fosse em mim, porque eu não queria ver minha mãe sofrer daquele jeito. E naquele momento tenso da hemorragia, perguntei algumas vezes se ela sentia dor, e ela me respondia sempre que não.

Doendo ou não, mamãe foi pro centro cirúrgico pela segunda vez. Uma segunda ida já era programada, pois ela precisava refazer alguns pontos internos que haviam soltado, mas vinha sendo adiado por conta da anemia que ela tinha. Dessa vez era emergencial, então foi levada. Dr. Antônio e Dra Claudia operaram a mamãe por quase três horas.

quarta-feira, 5 de março de 2014

acordei.

Depois de uma noite de não-sono, levantamos e buscamos o que fazer. Mamãe passou a noite no CTI da emergência, chamam aqui de "sala vermelha", e não podia ter acompanhante.  Por volta das 7h, papai já estava no hospital com a malinha dela pronta. Fiquei em casa tentando descansar, mas obviamente não consegui.

Meu corpo parecia fora da órbita. Os passos que eu dava pareciam não comandados por mim. O meu cansaço não era físico, era psicológico. Meu corpo descansou por toda noite que passou, mas minha cabeça não. Toda família me ligava, eu precisava avisar aos mais próximos o que estava acontecendo e, o principal, eu precisava ficar com a minha mãe.

Cheguei no hospital por volta das 10h. Papai ainda não tinha conseguido entrar nem falar com nenhum médico pra saber da mamãe. A entrada na sala vermelha era proibida e passamos alguns minutos até que eu pudesse pensar em como resolver a situação. Fui ao serviço social, expliquei o que acontecia, e consegui ter alguma informação sobre ela - ao menos que estava viva. Eu devia aguardar a médica vir chamar a família pra conversar após a visita. Inclusive eu estaria aguardando até agora.

Existia uma possibilidade - grande - da mamãe sair do local que estava e ir pra enfermaria da emergência ou, ainda pior, pro corredor, já que o hospital estava lotado. Consegui ver um rosto conhecido, um médico que passou por mim algumas vezes no dia anterior, Dr. Luis Fernando, e perguntei se ele poderia me ajudar de alguma forma a ver minha mãe. De pronto, ele me disse que estava muito ocupado, senão iria naquele mesmo momento vê-la pra me dizer a situação, mas que eu poderia entrar pra falar com o cirurgião do plantão.

Nenhum médico me olhava com uma cara boa. Sempre que eu dizia "sou filha da paciente Maria Eulalia", eles poderiam estar sorrindo que a fisionomia mudava e a primeira frase era "o que você sabe da situação da sua mãe?". E foi exatamente assim com o primeiro médico que falei nesse dia. Dr. Gustavo me disse que ela passou a noite muito bem, vinha reagindo melhor que o esperado e que só não liberou a dieta pois ela precisaria completar 24h de cirurgia. Boas notícias, mas ainda tinha uma coisa me incomodando, eu não ia permitir que minha mãe ficasse no corredor do hospital, mesmo sem saber o que fazer.

Vimos a mamãe e disse que ia voltar pra casa porque não poderia ficar ali. Avisei que voltaria mais tarde pra dar um beijo de boa noite. Mais ou menos umas 18h estava novamente no hospital e mamãe não estava mais na sala vermelha. Uma enfermeira passou por mim e disse "ela subiu, está na enfermaria cirúrgica". A Dra Flávia tinha deixado na chefia da cirurgia uma solicitação de vaga, pedindo que a primeira vaga que surgisse na enfermaria fosse da mamãe.














terça-feira, 4 de março de 2014

aquele dia.

Cinco de fevereiro tinha tudo pra ser um dia comum, mas não foi. Minha mãe não estava bem e isso já não era do dia cinco, ou do dia um, ou de algum dia próximo. Isso já era recorrente nos nossos últimos meses.

Poucos filhos - ao menos os que conheço - são tão ligados aos pais, como sou com os meus. E isso não é pretensão minha, é verdade. Nunca quis saber a explicação, mas nesse momento as coisas ficam muito mais claras. Era pra ser assim.

Depois de vários médicos e até um diagnóstico de "cálculo renal", dado por uma médica (brasileira[!!!]), na UPA, depois de um exame de urina, fomos encarar a emergência de um hospital do Estado. Tínhamos uma ultrasonografia que solicitava uma tomografia computadorizada pra complementar o diagnóstico. Mamãe foi atendida, realizou exames de sangue e a tomografia - num total de 10h de espera no hospital. Com o laudo da tomografia em mãos, eu já não cabia mais em mim de tanta ansiedade. Não gostei do que vi ali, embora não tivesse entendido sequer uma linha.

Enquanto aguardávamos o médico nos atender para ver o resultado da TC, mamãe pediu para irmos procurar algo pra comer - estávamos o dia inteiro ali, sem ter comido nada. Sentamos na lanchonete do hospital, pegamos uma água de coco (nada de comer nos agradou) e eu chorei. Mamãe, do alto de toda sua força e proteção que me dá, disse "minha filha, não se preocupe, vai ficar tudo bem. Eu não tenho medo de nada! Só tenho medo se for câncer".

A clínica médica olhou o laudo e pediu para levarmos ao cirurgião da emergência. O caso era pra operação e ela não disse muito mais que isso. Mamãe entrou na sala de sutura já agoniada, mas não pelo que a médica tinha falado, pela vontade de ir logo pra casa. Mesmo com um caso cirúrgico, não imaginamos que não voltaríamos juntas pra casa. Pediu, pelo amor de Deus, que a médica só "desse uma olhadinha" naquele exame, pois não aguentava mais ficar ali. A médica pegou os exames e respondeu que não ia olhar nada daquilo, que antes de qualquer coisa ela ia contar tudo o que tava sentindo. Ali eu chorei.  Chorei porque pela primeira vez, em meses atrás de um atendimento correto, um médico parou pra ouvir o que minha mãe tinha pra dizer. Mamãe me olhou com aquela cara de "para de chorar, garota!" e contou tudo o que sentia praquela mulher, Dra. Flávia Menezes. Depois da história, ela olhou o exame em menos de um minuto e disse "dona Eulalia, nós vamos operar a senhora agora, tá? A senhora tem um tumor no reto, alguns pontos já no fígado, e precisamos abrir pra limpar essa barriguinha".


Eu pedia calma pra mamãe e ela pedia calma pra mim. Éramos eu e ela, uma querendo cuidar mais da outra. Ali eu vi que meu papel tinha mudado e que ela precisava deixar que isso acontecesse. Mamãe era a pessoa mais tranquila daquele hospital. Eu virei a pessoa mais desesperada e em cinco minutos depois a mais forte. Papai chegou atrás da gente justamente na hora que soubemos de tudo. Naquele tempo antes da cirurgia fomos a família mais feliz do mundo simplesmente por estarmos juntos. É estranho dizer felicidade nesse momento, mas sei que seriamos infelizes se um de nós três não estivesse ali naquela hora tão importante.

A cirurgia durou quase 2h, como previsto, e esperávamos a Dra Flávia e a Dra. Adriana virem conversar com a gente. As notícias chatas não pararam por ali. O tumor da mamãe não podia ser retirado, o fígado já vinha bastante comprometido e não nos deram expectativa de cura. Foi feita uma colostomia, sem previsão de retirada, e ela ficaria, no mínimo, uma semana no hospital pra se recuperar. Todo apoio nos foi dado. As médicas nos disseram que todo encaminhamento para o tratamento oncológico seria feito e explicou vários detalhes sobre qualidade de vida do paciente ostomizado. Minha tia e meu primo estavam com a gente e sentimos que não estávamos ali sozinhos.


Era, de longe, a pior noite da minha vida. Com todo o peso que essa frase leva. Digerir tanta informação e entender que vidas inteiras mudaram em algumas horas foi muito complicado. Passamos a noite em claro, eu e papai. Dormi ao lado dele, pois tinha medo, muito medo, e a cada vez que mudava de posição na cama, trocávamos olhares perdidos, sem saber no que se tornaria nossas vidas daquele dia em diante.