terça-feira, 3 de junho de 2014

03.06.1958

Hoje mamãe completaria 56 anos. Aprendi a gostar tanto de aniversários por causa dela. Mamãe sempre gostou de festas e comemorações. No período que ela ficou no hospital, já planejava como seria o aniversário dela desse ano. Imaginava ela carequinha, por conta da quimioterapia, mas sorridente, como sempre. A casa cheia de amigos e todos muito felizes por ela estar ali, firme e forte. Seria uma grande comemoração, era o que eu mais queria.

Todo ano mamãe passava meses pensando no que fazer no aniversário. No fim das contas não fazia nada e “descontava” no meu. Por ela que eu comemorava tanto. Um dos maiores sonhos de dona Eulalia era ter a casa cheia de filhos. Como não pôde, ela adorava que meus amigos estivessem sempre por perto. Reclamava, claro. Mas gostava. Todos sabem. Por isso festa de aniversário era sempre bem-vinda! Ta aí o melhor motivo pra casa cheia.

Estamos quase completando o terceiro mês sem ela. Todos os dias escorrem algumas lágrimas de saudade que logo são tomadas por um sorriso que surge simplesmente por lembrar o quanto tive uma mãe maravilhosa.  Nesse meu primeiro 03 de junho sem ela, percebi que as comemorações nunca mais serão do mesmo jeito, mas acho que consegui passar um dia feliz, como ela pediu que eu continuasse.


Hoje a melhor amiga dela postou essa foto. Nunca tinha me achado parecida com a mamãe, até então. Mas esse sorriso mostra muito bem nosso jeitinho igual. E como eu fiquei feliz com isso! Que essa semana ela receba muitos brindes de parabéns e felicitações, pois tenho certeza que é assim que ela quer ser lembrada.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

quando decidimos doar.


Nunca tínhamos conversado sobre transplantes, mesmo com um caso exemplar que tivemos na família. Até que um dia, quando esperávamos para entrar no CTI para ver a mamãe, papai comentou “minha filha, se algo acontecer, acho que ela iria gostar se doássemos o coração dela. Imagina se uma criança receber, como ela seria feliz!”. Crianças sempre foram a paixão da mamãe.

Eu já havia pensado sobre doação desde que ela tinha entrado no CTI. Na porta do setor do hospital colocaram um cartaz enorme, justamente com uma criança pedindo a doação. Mas achava que seria complicado convencer o papai a fazer isso, até que ele me surpreendeu vindo com esse comentário.

Hoje um programa de TV falou sobre transplantes e ontem a novela também abordou o assunto. É de uma importância enorme as pessoas compreenderem que mesmo no meio de tanta dor, pode conseguir ajudar outra família. E foi nisso que pensamos quando falamos sobre o assunto. Respondi ao papai que sim, que se a mamãe pudesse, faríamos as doações. Infelizmente ela não podia. A equipe do Programa Estadual de Transplante (PET) concluiu que ela não era uma doadora em potencial depois da avaliação da morte cerebral. São vários fatores que levaram a isso, a própria doença de base, a sepse que se instaurou e também a quantidade de noradrenalina que ela passou a utilizar depois da parada cardíaca (informações que me passaram, não sei se totalmente corretas).


Uma das coisas mais lindas que minha mãe me ensinou foi a ajudar o outro, seja lá “o outro” quem for. A gente não podia colaborar com dinheiro, mas mamãe era aquela que guardava um pouco das quentinhas que fazia para dar aos mendigos que ficam na nossa rua. E isso valeu na hora de decidirmos sobre seus órgãos. Mamãe foi uma mulher tão feliz, tão boa, que a gente queria que isso tudo se perpetuasse de alguma forma. Imaginem que lindo seria mais uma pessoa com esse coração cheio de amor no mundo. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

domingo de páscoa.

Ontem foi um dos dias mais difíceis desses 40 dias. Chorei demais, senti demais, sofri demais. Minhas lágrimas caíam sem que eu pudesse controlar. Me falaram que seria por conta da páscoa, que nas datas comemorativas temos essa tendência de “lembrar” mais.

Fiquei lembrando das últimas “semanas-santas” que passamos juntas. De uns bons anos pra cá, passei a usar o feriado prolongado pra viajar. Ano passado fiquei em casa. Precisava terminar de escrever minha monografia e também era um momento de ficar mais próxima do pai e da mãe. Meu tio Paulo veio aqui no domingo e trouxe um ovo de Páscoa pra mim. Chorei que nem criança. Lembro da mamãe comentar o tanto que eu era chorona e eu falei pra ela que aquilo me lembrava a infância, dos tantos ovos de Páscoa que meu tio me deu antes de tanta mudança que ele passou pela vida.

Foi um dia feliz pela visita do meu tio, que já não vinha mais aqui com tanta frequência, e também era aniversário do Rogger, um vizinho nosso muito querido. Tinha churrasco em comemoração ao aniversário e eu me dividia entre ficar um pouco na festa e um pouco no TCC.

Sempre achei que mamãe acertou em cheio no tanto de “mimo” que me deu. Nem mais nem menos. Embora sempre achem os filhos únicos muito mimados. Mesmo sendo única e depois de tanto sacrifício (qualquer dia eu conto pra quem não sabe), eu sempre tive liberdade em fazer as coisas que eu queria. Mamãe era católica, mas nunca ligou que eu não estivesse em casa pra passar a semana santa. Ela costumava dizer “eu te segurei o quanto pude, agora a vida é sua”. Claro que ela sempre comentava o que tinha vontade, como reclamar que eu gastava muito dinheiro viajando, mas entendia que era o que eu gostava de fazer. Algo que ela também sempre dizia era “em você eu confio, minha filha. Não confio nos outros”, quando eu respondia qualquer comentário dela sobre meus passeios com “ta tudo certo, mãe. Confia em mim”.

E ela sempre confiou. Fomos muito amigas sempre. E somos. Dividia segredos com ela que o comentário era “seu pai vai morrer se ficar sabendo disso!”. E ela mesma dava um jeitinho de contar as coisas pro papai. Tomei muuuuuito esporro, mas poucas horas depois ela ligava e pedia desculpas. “Mamãe ta nervosa, cê sabe...”, dizia ela quase como o gatinho do Shrek. Sempre dramática. Com quem será que aprendi, né?

No nosso último Natal, pouco antes de viajarmos, ela veio me mostrar o que tinha comprado de presente pra levar pra família. Depois de mostrar tudo, veio correndo até a sala agarrada com um ursinho de pelúcia e disse “esse aqui é seu”. Eu ri e respondi que não precisava. E ela retrucou “É o meu coração que vai ta sempre com você”.





quarta-feira, 9 de abril de 2014

1 mês.

Hoje completamos um mês. Um mês sem a pessoa que mais amo na vida. Um mês sem receber aquele boa noite todos os dias. Um mês sem ter aquele abraço apertado quando chego em casa no sábado à tarde. Um mês sem ter arroz fresquinho no almoço só porque era assim que eu gostava. Um mês sem ouvi-la perguntar se escovei os dentes, se a roupa de cama foi trocada ou se tirei a lente. Um mês sem acordar e ver que ela ta ali do lado só me olhando dormir. Um mês sem ouvi-la dizer que vai largar tudo e vai embora. E mal sabia que iria tão cedo.

Os dias passam, mas não. A gente ainda ta ali, naquele corredor de hospital, recebendo notícias. Indo trabalhar, voltando pra casa, pegando ônibus, indo pra festas, mas ainda ali. Ainda vendo médicos, ainda sentindo medo, ainda inseguros. Os dias passam, mas é como se nós estivéssemos parados e só gira o que está ao nosso redor.


“Minha filha, se algo acontecer, quero que você continue sendo essa filha linda que você sempre foi.” Tá muito difícil, mãe, mas vou continuar fazendo tudo pra te encher de orgulho. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

contagem regressiva.

Diferente do esperado, depois de um dia cheio de esperanças e fé renovadas, tivemos uma surpresa. Na quinta, dia 06, cheguei cedo no hospital, como de costume. Fui tentar conversar com o chefe do CTI sobre minha volta ao trabalho e um possível horário alternativo para conversar com os médicos. Ele não estava e fiquei por lá aguardando a visita. Às 14h já estava junto com o papai para entrarmos no CTI.

Como sempre fiz, cheguei no leito dela com um sorriso de orelha a orelha. Em todos esses dias, aprendi (sem saber como, nem com quem) que tinha que estar muito feliz por poder estar ali, dividindo isso com ela, e que ela precisava me ver bem. E era isso que eu queria mostrar pra ela todos os dias: o meu sorriso mais sincero.

Dra Flávia apareceu, vinha da sala dos médicos do CTI, e não tinha uma cara boa. Fui abraçá-la e ela disse "Bru, você precisa ser forte. Sua mãe deu uma piorada. Teve uma parada cardíaca de meia hora hoje cedo e quase não conseguiram fazê-la voltar". Não sei definir minha reação. Não faço ideia de como deve ter sido a minha cara. Mas pra mim ela permanecia ali "bem", como antes.

Não contei pro meu pai. Esperei que a Dra Milena, intensivista do dia, contasse tudo pra nós dois juntos. Deixei que ele ficasse com a mamãe bem, sem aquele peso ou aquele medo que eu tinha. Ele não merecia.

Dra Milena nos chamou pra conversar e contou sobre a parada cardíaca. Por meia hora ela insistiu que a mamãe permanecesse ali pra nos encontrar na hora da visita. Nos disse pra aproveitarmos o máximo possível, pois uma nova parada ela não suportaria. Mamãe "voltou" com muita droga pra manter a pressão. Ficamos desolados.

Voltamos às 18h, pois a Dra Milena deixou que passássemos mais tempo com ela, pra aproveitarmos tudo. Nessa hora, ela comentou que mamãe permanecia estável, sem nenhuma nova intercorrência. Voltamos pra casa um pouco mais tranquilos, mas a sensação que a qualquer momento o telefone poderia tocar era cruel.

A previsão era que na sexta ela fizesse a traqueostomia e mais uma lavagem abdominal, que foram suspensas. Mamãe não tinha condição clínica para suportar qualquer intervenção cirúrgica. O fígado apresentou sinais de falência e os olhos dela estavam bem amarelados. Mais uma coisa começou a me preocupar.

Parecia que tudo o que tínhamos caminhado e vencido até agora estava chegando ao fim. Ao mesmo tempo que eu sabia disso, não deixei de acreditar nem um minuto que mamãe voltaria pra casa. Até que o intensivista de sábado foi mais duro comigo e com papai. Quando questionei sobre os danos cerebrais que a parada cardíaca poderia ter causado, ele foi direto "Bruna, sua mãe não vai voltar pra casa".

Papai chorou muito e eu só queria que o médico me explicasse o que acontecia. Pela experiência dele, era mesmo questão de alguns dias. A infecção ainda era localizada no abdômen, mas o fígado já estava numa situação bem complicada, podendo parar a qualquer momento, e aí era mesmo aguardar que as coisas fossem "parando". Nesse momento pensei no quanto os próximos dias seriam sofridos pra ela. É triste demais saber que você não pode fazer nada além do que já foi feito. Imagina você saber que a pessoa que te deu a vida está indo embora aos poucos, aos pedaços, órgão por órgão, sem que nada pudesse ser feito?

O câncer complicou toda a evolução ou melhora que ela apresentou nesse período. Mamãe esperava ficar boa, mas tudo era muito, muito, muito lento.

Quando chegamos no hospital, no domingo, vi que o nome da mamãe carregava um "*". Logo perguntei o motivo e o segurança disse que a médica iria conversar só comigo e com os familiares de outro paciente. Na hora já veio aquele desespero, mas passou quando uma enfermeira do setor saiu, perguntei se mamãe estava "bem" e ela me pediu pra ficar tranquila. Fiquei.

Dra Paula chegou antes da visita e me chamou. Entramos, sentamos e ela disse "Bruna, fizemos alguns testes na sua mãe ontem a noite e hoje e podemos afirmar com 98% de certeza que ela teve morte cerebral".

segunda-feira, 17 de março de 2014

tratamento intensivo.

Depois da cirurgia, o clima era bem tenso. Dr. Antonio passou por nós pelo corredor e avisou que já iria nos chamar para conversar. Nesse momento o papai já havia chegado ao hospital e minha tia Márcia também.

A conversa foi bem dura. Dr. Antonio explicou o que tinha acontecido, mamãe teve um "desabamento" do intestino, ou seja, o intestino despencou da colostomia e caiu na cavidade abdominal, ficando solto dentro da barriga. A atividade do órgão continuou normal, o que fez com que as fezes se espalhassem por todo o organismo. A situação se tornou bem grave. Mamãe saiu da cirurgia direto pro CTI e fomos vê-la logo depois da conversa. Ela estava lúcida e conversou pouco com a gente. Disse para ela que tudo já estava resolvido, expliquei o que tinha acontecido e pedi que ela ficasse calma pra que tudo pudesse ser resolvido o quanto antes.

Além disso, mamãe teria que passar por várias lavagens da barriga, pois agora ela tinha um quadro de peritonite, que é a inflamação daquela região. Não se sabia muito quantas vezes essas cirurgias seriam feitas, mas era isso que ia salvar a vida dela. Essas lavagens são realizadas para limpar a área da infecção.

Conforme os dias iam passando, as informações ficavam mais claras pra mim. Passava noites lendo artigos sobre todo e qualquer procedimento que era feito com a mamãe. Isso me deixava mais segura para conversar com os médicos e ter perguntas mais pertinentes ao assunto. Dois dias depois ela foi pro centro cirúrgico novamente, para a primeira lavagem abdominal.

Mamãe voltou desse procedimento entubada, não aguentou ficar sem o respirador. No dia anterior ela já tinha apresentado muita tosse e, caso ela permanecesse sem o aparelho, além do risco de ficar sem respirar, ainda forçaria ainda mais a barriga, região infectada.

Passados 15 dias de CTI, o primeiro esquema antibiótico terminou, mamãe permanecia entubada e nos foi pedida uma autorização para fazer a traqueostomia. Ela tinha respondido bem ao tratamento, mas a sepse ainda estava presente. Como não tinha previsão de tirar o respirador, era melhor que fizessem a traqueostomia para que ela tivesse um bem estar melhor. O esperado, agora, era que ela começasse a melhorar.






sábado, 8 de março de 2014

enfermaria 53.

Na enfermaria as coisas ficaram mais tranquilas e tinha a sensação que tudo ia se ajeitar. São oito leitos na sala e uma equipe de enfermagem 24h. Os médicos fazem a visita pela manhã e depois conversam com a família, caso tenha necessidade.

Pedi autorização pra ser acompanhante da mamãe e a enfermagem liberou. Era uma quinta e fiquei com ela no hospital até umas 22h. Estava pronta pra dormir, mas ela, obviamente, não deixou. Sempre se preocupando mais comigo do que com ela. Eu tinha que trabalhar no dia seguinte e ela queria que eu dormisse direito em casa.

Os dias foram seguindo e eu vi a necessidade de ficar com ela naquele momento. Mamãe precisava de mim e se eu estivesse longe não teria como conversar com os médicos e acompanhar a melhora. Pedi 10 dias de férias que tinha no trabalho e fiquei revezando com minha tia e minha vizinha até o dia 17 de fevereiro, uma segunda.

Entre os dias 17 e 18 passei a noite com ela. Mamãe sempre muito ativa, não tava aguentando mais ficar naquela cama. Não encontrava posição pra dormir, passava a noite em claro, não tinha mais rivotril que desse jeito naquela ansiedade de voltar pra casa. No meio da noite ela pediu que fossemos limpar a sacolinha da colostomia - que eu já tinha aprendido a cuidar - e vi que tinha algo estranho, um líquido com uma cor roxa que muito parecia sangue. Voltamos pra cama e fiquei com aquilo na cabeça. Sabia que não era um bom sinal. Chamei a enfermeira, pois mamãe reclamou de dor, e comentei que as fezes estavam com uma coloração estranha. Pela manhã, fomos tomar banho e dessa vez a sacolinha estava completamente cheia de sangue.

Dr. Antônio Mateus é o chefe da cirurgia do hospital. Em um dos primeiros dias da mamãe na enfermaria tivemos uma longa conversa. Ele me explicou a gravidade do tumor, o quanto está avançado e os cuidados que teremos que seguir após a alta. Foi ele que chegou pra ver a mamãe no momento da hemorragia.

Aquilo tudo passa como um filme na minha cabeça. Foram algumas horas de muita tensão. Mamãe perdia muito sangue e já tinha um quadro de anemia, o que me preocupava ainda mais. Tentei manter o controle da situação o máximo possível pra que ela não ficasse ainda mais nervosa. Quando o Dr. Antônio chegou no leito, mamãe falou "Dr, me salva, eu to morrendo!" e ele, numa calma que deve ser característica da maioria dos cirurgiões, ou pelo menos deveria ser, disse "tem ninguém morrendo aqui, dona Eulalia! Fique calma aí".

Sempre soube que mamãe era uma pessoa muito forte pra dor (e pra um monte de outras coisas). Lembro de uma vez, devia ter uns 12 anos, ela teve bursite e sentia uma dor insuportável. Ela chorava na cama e eu, do lado dela, pedia a Deus que a dor fosse em mim, porque eu não queria ver minha mãe sofrer daquele jeito. E naquele momento tenso da hemorragia, perguntei algumas vezes se ela sentia dor, e ela me respondia sempre que não.

Doendo ou não, mamãe foi pro centro cirúrgico pela segunda vez. Uma segunda ida já era programada, pois ela precisava refazer alguns pontos internos que haviam soltado, mas vinha sendo adiado por conta da anemia que ela tinha. Dessa vez era emergencial, então foi levada. Dr. Antônio e Dra Claudia operaram a mamãe por quase três horas.