segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

natal;

Há um ano partíamos para a viagem mais esperada das nossas vidas. Pelo menos na minha e na dela. Comprei as passagens em agosto e consegui um bom preço para irmos os três. Era uma felicidade que não cabia em nós. Levar a mamãe de volta à cidade dela era um dos meus grandes sonhos. Sempre dizia para ela que um dia eu daria aquele presente. Custei a acreditar quando consegui. Na verdade, acho que só acreditei quando chegamos ao aeroporto para embarcar para Salvador. Vê-los chegando no terminal arrumadinhos para viajar já encheu meus olhos de lágrimas. Papai, que todo o tempo dizia que não ia viajar e que não gostava de andar de avião, até que estava animado. Mal sabia ele o tanto que voltaria apaixonado por aquela terra e toda a família da mamãe.

Descemos em Salvador e um primo que mora lá foi nos buscar. Partimos para Paulo Afonso só no dia seguinte. Mamãe não via Walter há anos que ela nem sabia quantos. Foi uma noite regada a algumas cervejas e muita conversa. Eu sempre fui muito ligada à família da minha mãe. Por maior que seja essa distância, meus tios e primos sempre foram muito próximos de nós por ligações, cartas e fotografias.  Além daquela ser a vontade dela, era um sonho meu se realizando. Os meus maiores sonhos sempre foram por eles e para eles.

No dia seguinte, Walter nos deixou na rodoviária e partimos para Paulo Afonso em uma viagem que cortava, praticamente, a Bahia inteira. O ônibus ia parando em todas as cidades. Não pregamos os olhos por nenhum minuto. Papai me mostrava a vegetação da estrada e me explicava cada plantação tipicamente nordestina, como uma imensa de caju em uma cidade que faço nem ideia do nome.

Chegamos em Paulo Afonso por volta das 18h. Meus tios nos esperavam na rodoviária. Foi aquele chororô que já sabíamos que ia ser. Mamãe só repetia para minha tia "para de chorar, Nana! não tem ninguém morrendo!". Ela nunca gostou de chorar. Seria capaz de contar nos dedos as vezes que a vi chorando. E todas elas eu chorava junto. Aliás, era uma ótima maneira de fazê-la parar. Bastava dizer "mãe, se você chorar eu choro também".

Papai em poucas horas se sentia em casa. Foi tão bem recebido que repetia sempre "imagina se eu não tivesse vindo?!". Pois é, imagina! No dia seguinte já partimos para a cidade de uma outra tia, a Vera. Pela primeira vez em 25 anos minha mãe voltava à terra dela. Dos cinco filhos que estão vivos, três estavam ali passando as festas juntos. As três filhas mulheres que minha vó teve. A gente não tinha como mensurar tamanha felicidade.

Foi um natal lindo. Trocamos presentes, as crianças estavam felizes como nunca e, pela primeira vez, eu tinha um Natal com a minha família. A minha, de verdade, de sangue, (quase) inteira. Sofríamos tanto em pensar que a distância não nos permitia viver aquilo sempre. Mas foi assim que a vida sempre quis que fosse, né?!

Mamãe viu quase todas as pessoas que fizeram parte da vida dela. Os tios que ainda estão vivos, os sobrinhos que ainda não conhecia, os filhos de alguns sobrinhos, os primos, os filhos dos primos, a melhor amiga e até o primeiro namorado (com toda a família). Foram dias muito felizes.

Passamos a nos perguntar se conseguiríamos viver ali, papai estava tão feliz que não queria ir embora. Pra completar tamanha felicidade, meu primo se casou logo após o Natal. Mamãe estava linda, radiante! Feliz e divertida como ela costumava ser e ali, entre a família dela. Entre pessoas que a viram crescer, que tinham participação na história dela. Chirley, a esposa do meu primo, afilhado da minha mãe, sempre repetia "como tia Lala é divertida!". Para eles, ela é Lala - com a primeira sílaba tônica.

Mamãe já sentia dores e chegamos a ir ao hospital em um dia. Como de "praxe", os médicos deram um remédio para cólicas e voltamos para casa. Minha tia Nana, que mais cuidou de minha vó durante a vida toda, estava preocupada. Dizia que as dores de dona Lourdes eram "mesmo assim". E deviam ser, de fato. As duas tiveram exatamente o mesmo diagnóstico.

Quando chegou dia 31 de dezembro, a animação do réveillon não era tanta. Nossa volta era no dia seguinte. A família de Tia Vera, que tinha vindo de Santana do Ipanema, já tinha ido embora e passamos a virada com a família de Amanda, então recém-esposa do meu primo. A comemoração foi na casa da minha tia. Acho incrível como a tradição da ceia muda de uma cidade pra outra. Lá eles não conheciam rabanada!!!!! Corremos a cidade inteira atrás de pão pra rabanada e quase não conseguimos.
Fizemos a alegria da ceia do réveillon! Todo mundo amou. Eu e mamãe éramos imbatíveis nas rabanadas.

Viramos o ano e logo no primeiro dia viemos embora. Almoçamos na beira do rio São Francisco e logo seguimos para o aeroporto. Papai já nem tinha mais medo de avião. Nos despedimos prometendo voltar.

Exatamente um mês depois que voltamos, mamãe foi internada. Esse certamente será um dos natais mais complicados da vida. A saudade é enorme e quando a gente acha que diminuiu, ela vem com tudo e derruba a gente de surpresa. Mas vamos seguir.

domingo, 20 de julho de 2014

aos amigos.

Que ingrata eu seria por deixar passar esse dia sem falar aos meus. Cheguei a comentar com uns “não tenho paciência pra essas coisas”. Talvez o domingo e todo peso da carência que tem, misturado ao meu amor e gratidão, trouxe essa vontade. Nunca fui muito dessas de ter poucos e bons, tenho muitos e maravilhosos. Sem modéstia. E sei disso, principalmente, por poder ter contado com todos no momento que mais precisei.

Os de escola continuam até hoje, misturados com os amigos do bairro, da rua ou do prédio. Não nos vemos mais com tanta frequência, mas quando encontramos é como se esse intervalo não existisse. (Cliché, eu sei, mas verdade). Voltam as piadas, as risadas, as lembranças da professora burra, do outro que foi expulso de sala e das colas.

Os atuais se misturam. Há sete anos uma comunidade no orkut me fez encontrar muitos que hoje são como minha família. É muito difícil responder quando as pessoas perguntam como nos conhecemos. Dizer apenas “pela internet” parece muito raso por tanta coisa vivida. Além deles, vieram os agregados e algumas famílias que sempre me recebem e acolhem tão bem.

Da faculdade são poucos, mas aqueles que sei que estarão comigo por muito tempo. Um torcendo pela realização do outro. É tão prazeroso dizer que aquele conseguiu aquela vaga que queria tanto! Tem os de “herança”, aqueles mineiros queridos que continuam me recebendo tão bem que ocupam um pedaço enorme no meu coração. Os de trabalho, aqueles que a gente convive intensamente por tanto tempo e depois perde o contato, mas que preenchem uma lacuna enorme nas tantas histórias que passaram. E, ainda, aqueles que de tão amigos já foram promovidos a primos, tios e sobrinhos (mais conhecidos como minha família escolhida – já que a minha de verdade vive tão longe).

Para cada um de vocês um obrigada gigaaaaante! Recebi tanto carinho, tanto afeto, tanto abraço, tanto cuidado, tanto amor em dias tão difíceis desse ano, que nunca serei capaz de retribuir ou agradecer o suficiente. Só tenho a certeza de ter muita sorte por ter cada um de vocês ao meu lado.


Feliz dia dozamigo (serve pra amanhã também)! Agora toca o Reginaldo Rossi pra embalar a breguitude! 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

cento e vinte dias.

Em nenhum momento da vida imaginei ficar sem você, mãe. Claro que isso é algo que a gente sempre pensa que vai acontecer num futuro muito distante, que não consegue nem imaginar. Hoje completamos quatro meses sem a presença física uma da outra, mas é incrível como eu sei que você está sempre aqui comigo.

Esses cento e poucos dias parecem uma eternidade. Não há um dia que eu não lembre tudo que passamos naquelas semanas de fevereiro e março. Eu e papai jamais poderíamos prever que sobreviveríamos sem você por mais de um mês. Ele agora lava as roupas dele e faz o prato sozinho! Eu tento deixar a casa como você sempre gostou, mas meu quarto tá uma zona por não ter lugar pra guardar todas as minhas coisas. Eu vou dar um jeito nisso, prometo.

Sabe aquela tosse que eu tenho vez em quando? Então atacou um pouco e só escuto o papai falando lá da sala “ta tossindo muito, hein, filha”. Você responderia daquele jeito “deixa a menina tossir!”. Não estamos deixando louça na pia para o dia seguinte, nem garrafas de água vazias. A dona Cida esta fazendo faxina a cada quinze dias e vamos mantendo tudo nos “conformes”, como você gostava de dizer.

Nossa rotina não teve muita mudança nas coisas práticas. A diferença agora é que papai não tem compromisso e sou eu que saio todos os dias para trabalhar. Inclusive, mudei de trabalho e queria muito que você estivesse aqui pra ver o quanto eu tô feliz por estar em uma área que eu sempre quis! Aliás, eu sei que cê ta vendo, né. Todos os dias o papai me busca no ponto de ônibus e voltamos juntos para casa. Uma vez por semana passamos no mercado e no caminho pra casa ele sempre comenta “todos os dias a mamãe fazia esse caminho cheia de compras”. Pois é.

São quatro meses que parecem cinquenta, me pego sorrindo ao lembrar do seu sorriso em cada coisa fazíamos juntas. Acho que estamos fazendo tudo do jeitinho que você queria, com muita saudade, mas sem lágrimas, como você sempre pediu. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

03.06.1958

Hoje mamãe completaria 56 anos. Aprendi a gostar tanto de aniversários por causa dela. Mamãe sempre gostou de festas e comemorações. No período que ela ficou no hospital, já planejava como seria o aniversário dela desse ano. Imaginava ela carequinha, por conta da quimioterapia, mas sorridente, como sempre. A casa cheia de amigos e todos muito felizes por ela estar ali, firme e forte. Seria uma grande comemoração, era o que eu mais queria.

Todo ano mamãe passava meses pensando no que fazer no aniversário. No fim das contas não fazia nada e “descontava” no meu. Por ela que eu comemorava tanto. Um dos maiores sonhos de dona Eulalia era ter a casa cheia de filhos. Como não pôde, ela adorava que meus amigos estivessem sempre por perto. Reclamava, claro. Mas gostava. Todos sabem. Por isso festa de aniversário era sempre bem-vinda! Ta aí o melhor motivo pra casa cheia.

Estamos quase completando o terceiro mês sem ela. Todos os dias escorrem algumas lágrimas de saudade que logo são tomadas por um sorriso que surge simplesmente por lembrar o quanto tive uma mãe maravilhosa.  Nesse meu primeiro 03 de junho sem ela, percebi que as comemorações nunca mais serão do mesmo jeito, mas acho que consegui passar um dia feliz, como ela pediu que eu continuasse.


Hoje a melhor amiga dela postou essa foto. Nunca tinha me achado parecida com a mamãe, até então. Mas esse sorriso mostra muito bem nosso jeitinho igual. E como eu fiquei feliz com isso! Que essa semana ela receba muitos brindes de parabéns e felicitações, pois tenho certeza que é assim que ela quer ser lembrada.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

quando decidimos doar.


Nunca tínhamos conversado sobre transplantes, mesmo com um caso exemplar que tivemos na família. Até que um dia, quando esperávamos para entrar no CTI para ver a mamãe, papai comentou “minha filha, se algo acontecer, acho que ela iria gostar se doássemos o coração dela. Imagina se uma criança receber, como ela seria feliz!”. Crianças sempre foram a paixão da mamãe.

Eu já havia pensado sobre doação desde que ela tinha entrado no CTI. Na porta do setor do hospital colocaram um cartaz enorme, justamente com uma criança pedindo a doação. Mas achava que seria complicado convencer o papai a fazer isso, até que ele me surpreendeu vindo com esse comentário.

Hoje um programa de TV falou sobre transplantes e ontem a novela também abordou o assunto. É de uma importância enorme as pessoas compreenderem que mesmo no meio de tanta dor, pode conseguir ajudar outra família. E foi nisso que pensamos quando falamos sobre o assunto. Respondi ao papai que sim, que se a mamãe pudesse, faríamos as doações. Infelizmente ela não podia. A equipe do Programa Estadual de Transplante (PET) concluiu que ela não era uma doadora em potencial depois da avaliação da morte cerebral. São vários fatores que levaram a isso, a própria doença de base, a sepse que se instaurou e também a quantidade de noradrenalina que ela passou a utilizar depois da parada cardíaca (informações que me passaram, não sei se totalmente corretas).


Uma das coisas mais lindas que minha mãe me ensinou foi a ajudar o outro, seja lá “o outro” quem for. A gente não podia colaborar com dinheiro, mas mamãe era aquela que guardava um pouco das quentinhas que fazia para dar aos mendigos que ficam na nossa rua. E isso valeu na hora de decidirmos sobre seus órgãos. Mamãe foi uma mulher tão feliz, tão boa, que a gente queria que isso tudo se perpetuasse de alguma forma. Imaginem que lindo seria mais uma pessoa com esse coração cheio de amor no mundo. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

domingo de páscoa.

Ontem foi um dos dias mais difíceis desses 40 dias. Chorei demais, senti demais, sofri demais. Minhas lágrimas caíam sem que eu pudesse controlar. Me falaram que seria por conta da páscoa, que nas datas comemorativas temos essa tendência de “lembrar” mais.

Fiquei lembrando das últimas “semanas-santas” que passamos juntas. De uns bons anos pra cá, passei a usar o feriado prolongado pra viajar. Ano passado fiquei em casa. Precisava terminar de escrever minha monografia e também era um momento de ficar mais próxima do pai e da mãe. Meu tio Paulo veio aqui no domingo e trouxe um ovo de Páscoa pra mim. Chorei que nem criança. Lembro da mamãe comentar o tanto que eu era chorona e eu falei pra ela que aquilo me lembrava a infância, dos tantos ovos de Páscoa que meu tio me deu antes de tanta mudança que ele passou pela vida.

Foi um dia feliz pela visita do meu tio, que já não vinha mais aqui com tanta frequência, e também era aniversário do Rogger, um vizinho nosso muito querido. Tinha churrasco em comemoração ao aniversário e eu me dividia entre ficar um pouco na festa e um pouco no TCC.

Sempre achei que mamãe acertou em cheio no tanto de “mimo” que me deu. Nem mais nem menos. Embora sempre achem os filhos únicos muito mimados. Mesmo sendo única e depois de tanto sacrifício (qualquer dia eu conto pra quem não sabe), eu sempre tive liberdade em fazer as coisas que eu queria. Mamãe era católica, mas nunca ligou que eu não estivesse em casa pra passar a semana santa. Ela costumava dizer “eu te segurei o quanto pude, agora a vida é sua”. Claro que ela sempre comentava o que tinha vontade, como reclamar que eu gastava muito dinheiro viajando, mas entendia que era o que eu gostava de fazer. Algo que ela também sempre dizia era “em você eu confio, minha filha. Não confio nos outros”, quando eu respondia qualquer comentário dela sobre meus passeios com “ta tudo certo, mãe. Confia em mim”.

E ela sempre confiou. Fomos muito amigas sempre. E somos. Dividia segredos com ela que o comentário era “seu pai vai morrer se ficar sabendo disso!”. E ela mesma dava um jeitinho de contar as coisas pro papai. Tomei muuuuuito esporro, mas poucas horas depois ela ligava e pedia desculpas. “Mamãe ta nervosa, cê sabe...”, dizia ela quase como o gatinho do Shrek. Sempre dramática. Com quem será que aprendi, né?

No nosso último Natal, pouco antes de viajarmos, ela veio me mostrar o que tinha comprado de presente pra levar pra família. Depois de mostrar tudo, veio correndo até a sala agarrada com um ursinho de pelúcia e disse “esse aqui é seu”. Eu ri e respondi que não precisava. E ela retrucou “É o meu coração que vai ta sempre com você”.





quarta-feira, 9 de abril de 2014

1 mês.

Hoje completamos um mês. Um mês sem a pessoa que mais amo na vida. Um mês sem receber aquele boa noite todos os dias. Um mês sem ter aquele abraço apertado quando chego em casa no sábado à tarde. Um mês sem ter arroz fresquinho no almoço só porque era assim que eu gostava. Um mês sem ouvi-la perguntar se escovei os dentes, se a roupa de cama foi trocada ou se tirei a lente. Um mês sem acordar e ver que ela ta ali do lado só me olhando dormir. Um mês sem ouvi-la dizer que vai largar tudo e vai embora. E mal sabia que iria tão cedo.

Os dias passam, mas não. A gente ainda ta ali, naquele corredor de hospital, recebendo notícias. Indo trabalhar, voltando pra casa, pegando ônibus, indo pra festas, mas ainda ali. Ainda vendo médicos, ainda sentindo medo, ainda inseguros. Os dias passam, mas é como se nós estivéssemos parados e só gira o que está ao nosso redor.


“Minha filha, se algo acontecer, quero que você continue sendo essa filha linda que você sempre foi.” Tá muito difícil, mãe, mas vou continuar fazendo tudo pra te encher de orgulho.