quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

abraçar e agradecer;

Aprendi a gostar de Bethânia com a mamãe. Ela sempre cantava muitas  músicas dela. Gostava muito de “quando estou com você, estou nos braços da paz”, sempre cantarolava para mim. Primeiro show que tive o prazer de ver esse ano foi dela. A turnê, que chama “abraçar e agradecer”, me lembrou e reforçou, o tempo inteiro, a importância de simplesmente agradecer. Nada mais justo para um janeiro.
 
Hoje encontrei um dos médicos que operou minha mãe. Talvez o que tenha feito a cirurgia mais crítica de todo o período de internação dela. Até hoje eu pensava todos os dias que precisava ter coragem de voltar ao hospital para agradecer ao Dr. Antonio pelo ótimo tratamento que a mamãe teve durante a internação. Nunca consegui ter tempo (na verdade, coragem). Até hoje.

Eu voltava do almoço e o Dr. Antônio  descia a escada do prédio que eu trabalho. Corri até ele e chamei. Me apresentei, ele não lembrava de mim até que eu falasse do caso da mamãe. Ele lembrou e eu disse que só queria agradecer. Agradecer por toda atenção que me deu por tantos dias. Agradecer por todas as explicações que me deu do caso dela. Agradecer pelo leito que ficou guardado esperando que ela retornasse do CTI. Agradecer pelo seu empenho e coragem de ter uma profissão tão bonita e importante e, principalmente, por desempenha-la de forma tão humana. Agradecer. 

Certamente ele e a Dra Flávia não sabem da importância que têm na minha vida. Mas eu sei o quanto sou grata por ter encontrado esses dois (além de tanta gente querida daquele hospital) no meu caminho e a única maneira que posso retribuir tudo o que fizeram pela minha mãe é agradecendo. 

A minha felicidade de ter encontrado o Dr Antônio na rua e conseguido dizer alguns "obrigados" era tanta que não sei nem se ele conseguiu me entender ou se está me achando uma louca. Mas tudo bem. To muito feliz por esse encontro ter acontecido. 

Acho que Deus ta colocando muitas coisas boas nesse período que vamos completar um ano sem ela, para que essa dor seja mais leve. Obrigada. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

a vida é tão rara.

Muitas coisas acontecem na nossa vida pra mudar completamente o rumo dela. Eu nunca imaginei que fosse perder tão cedo a presença física da minha mãe, certamente quem tem a mãe ao lado nunca tenha - ou queira ter - pensado nisso. Acontece que perder alguém tão próximo me fez pensar (muito, todos os dias) no quanto a vida pode ser curta sem que a gente saiba. 

Hoje completa um ano que a mamãe foi internada. Algumas datas são bem complicadas. Nesse tempo que passou, de 12 de março até hoje, a única coisa que eu me preocupei em fazer foi: tentar ser feliz. 

Eu sabia que aquela dor ia me consumir, se eu deixasse, e eu sabia que não poderia deixar isso acontecer. Uma das coisas que minha mãe me pediu, enquanto estava no hospital, foi que eu continuasse sendo feliz independente do que acontecesse. Eu tinha que continuar assim por mim, por ela e pelo meu pai. Não é fácil. 

De uma hora pra outra eu me tornei responsável pela minha casa e por tudo que ela trouxe junto. Meu pai, contas, roupa pra lavar, compras pra fazer, etc, etc. É lindo quando você vai morar sozinho e sabe que pode ligar pra casa quando o dinheiro aperta que, magicamente, sua conta terá saldo positivo. É difícil quando é você e você. 

Minha mãe comandava nossa pequena família com maestria. Meu pai não sabia nem onde as calças dele ficavam guardadas no armário. E eu ali, voltando pra casa depois de cinco anos morando fora dela e lembrando de cada coisa que minha mãe fazia pra manter tudo do jeito que ela gostava. 

Os meses foram passado, a gente foi se adaptando e minha segunda maior missão - além de ser feliz - é fazer com que meu pai se acostume com essa nova vida da maneira que ele tenha o menor sofrimento possível. Pra ele é muito mais difícil que pra mim. São duas dores diferentes, incomparáveis e imensuráveis. 

Cada vez que chegamos em casa é uma lembrança, cada vez que abrimos a porta é outra. Parece que ela vai sair do banheiro ou surgir na cozinha a qualquer momento avisando que a comida já está ficando pronta. Mas não vai. Nesses momentos a gente esquece a obrigação de ser feliz e acaba deixando a saudade bater e aquela lágrima cair. 

Ontem eu deixei de pegar uma van na rua e fiquei esperando meu ônibus passar por muitos minutos. Quando peguei meu ônibus, ele parou num engarrafamento que tinha sido causado por aquela van que eu perdi. Ela bateu e derrubou um poste que ficou atravessado na pista. Eu poderia estar ali, como eu poderia estar em vários outros lugares no meio de algum acidente. Mas eu não sei, a gente não sabe. Então é obrigatório aquele clichê de viver cada dia como se fosse o último. 

Assim que a mamãe desencarnou, parecia que meu mundo tinha parado, mas continuava a ver tudo em volta rodar. Era um transe. Eu só voltaria ao mundo normal quando começasse a girar junto com ele e isso só ia acontecer quando eu quisesse. Com tanta gente maravilhosa em volta, eu não fui "deixada" muito tempo parada ali. Voltei logo pro ritmo e empenhada a encher minha mãe de orgulho todos os dias. 

Tem uma música que sempre toca na minha cabeça quando eu lembro isso da vida:
http://youtu.be/je-RTYbzoEk

A vida não para. 
A vida é tão rara. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

só.zinha;

Desde que me entendo por gente repito que meu sonho é ser independente. Sempre foi, mesmo. Nunca sonhei em casar, entrar na igreja vestida de noiva ou ter uma casa grande com muitos filhos. Isso nunca foi uma prioridade pra mim. Só que eu não sabia que era tão pesado. Pra mim era "só" não depender de ninguém. Ter as minhas coisas conquistadas com o meu trabalho e poder fazer o que eu quiser, quando e como eu quiser.

Hoje eu consigo entender o tanto que minha mãe se preocupava em me ver com alguém ou com um filho. Ela dizia sempre que não queria me deixar sozinha, já que não me deu irmãos. Se apegava aos meus namorados como se fossem filhos. Eu dizia sempre que ela não precisava se preocupar com isso pq eu nunca estaria sozinha, que tenho muitos amigos e a família. Hoje eu sei o que ela queria dizer. Por mais amigos que você tenha, você está sozinho. Por maior que seja a sua família, você está sozinho. Você só não está só quando tem seus pais ao lado (ou quando já construiu sua nova família - que é aquele momento que a mãe adora dizer "quando você tiver seu filho, vai me entender!"). São eles que vivem por você incondicionalmente. São eles que te atendem a qualquer hora do dia ou da noite só pra ouvir que você tropeçou numa pedra.

Hoje eu queria que meus sonhos tivessem sido mais "normais". Tenho a minha independência, minha família, muitos amigos, mas não tenho pra quem contar que tropecei numa pedra, que to com o nariz entupido, que comprei "aquele sapato que eu queria, lembra?". Nunca me senti tão sozinha tendo tanta gente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

natal;

Há um ano partíamos para a viagem mais esperada das nossas vidas. Pelo menos na minha e na dela. Comprei as passagens em agosto e consegui um bom preço para irmos os três. Era uma felicidade que não cabia em nós. Levar a mamãe de volta à cidade dela era um dos meus grandes sonhos. Sempre dizia para ela que um dia eu daria aquele presente. Custei a acreditar quando consegui. Na verdade, acho que só acreditei quando chegamos ao aeroporto para embarcar para Salvador. Vê-los chegando no terminal arrumadinhos para viajar já encheu meus olhos de lágrimas. Papai, que todo o tempo dizia que não ia viajar e que não gostava de andar de avião, até que estava animado. Mal sabia ele o tanto que voltaria apaixonado por aquela terra e toda a família da mamãe.

Descemos em Salvador e um primo que mora lá foi nos buscar. Partimos para Paulo Afonso só no dia seguinte. Mamãe não via Walter há anos que ela nem sabia quantos. Foi uma noite regada a algumas cervejas e muita conversa. Eu sempre fui muito ligada à família da minha mãe. Por maior que seja essa distância, meus tios e primos sempre foram muito próximos de nós por ligações, cartas e fotografias.  Além daquela ser a vontade dela, era um sonho meu se realizando. Os meus maiores sonhos sempre foram por eles e para eles.

No dia seguinte, Walter nos deixou na rodoviária e partimos para Paulo Afonso em uma viagem que cortava, praticamente, a Bahia inteira. O ônibus ia parando em todas as cidades. Não pregamos os olhos por nenhum minuto. Papai me mostrava a vegetação da estrada e me explicava cada plantação tipicamente nordestina, como uma imensa de caju em uma cidade que faço nem ideia do nome.

Chegamos em Paulo Afonso por volta das 18h. Meus tios nos esperavam na rodoviária. Foi aquele chororô que já sabíamos que ia ser. Mamãe só repetia para minha tia "para de chorar, Nana! não tem ninguém morrendo!". Ela nunca gostou de chorar. Seria capaz de contar nos dedos as vezes que a vi chorando. E todas elas eu chorava junto. Aliás, era uma ótima maneira de fazê-la parar. Bastava dizer "mãe, se você chorar eu choro também".

Papai em poucas horas se sentia em casa. Foi tão bem recebido que repetia sempre "imagina se eu não tivesse vindo?!". Pois é, imagina! No dia seguinte já partimos para a cidade de uma outra tia, a Vera. Pela primeira vez em 25 anos minha mãe voltava à terra dela. Dos cinco filhos que estão vivos, três estavam ali passando as festas juntos. As três filhas mulheres que minha vó teve. A gente não tinha como mensurar tamanha felicidade.

Foi um natal lindo. Trocamos presentes, as crianças estavam felizes como nunca e, pela primeira vez, eu tinha um Natal com a minha família. A minha, de verdade, de sangue, (quase) inteira. Sofríamos tanto em pensar que a distância não nos permitia viver aquilo sempre. Mas foi assim que a vida sempre quis que fosse, né?!

Mamãe viu quase todas as pessoas que fizeram parte da vida dela. Os tios que ainda estão vivos, os sobrinhos que ainda não conhecia, os filhos de alguns sobrinhos, os primos, os filhos dos primos, a melhor amiga e até o primeiro namorado (com toda a família). Foram dias muito felizes.

Passamos a nos perguntar se conseguiríamos viver ali, papai estava tão feliz que não queria ir embora. Pra completar tamanha felicidade, meu primo se casou logo após o Natal. Mamãe estava linda, radiante! Feliz e divertida como ela costumava ser e ali, entre a família dela. Entre pessoas que a viram crescer, que tinham participação na história dela. Chirley, a esposa do meu primo, afilhado da minha mãe, sempre repetia "como tia Lala é divertida!". Para eles, ela é Lala - com a primeira sílaba tônica.

Mamãe já sentia dores e chegamos a ir ao hospital em um dia. Como de "praxe", os médicos deram um remédio para cólicas e voltamos para casa. Minha tia Nana, que mais cuidou de minha vó durante a vida toda, estava preocupada. Dizia que as dores de dona Lourdes eram "mesmo assim". E deviam ser, de fato. As duas tiveram exatamente o mesmo diagnóstico.

Quando chegou dia 31 de dezembro, a animação do réveillon não era tanta. Nossa volta era no dia seguinte. A família de Tia Vera, que tinha vindo de Santana do Ipanema, já tinha ido embora e passamos a virada com a família de Amanda, então recém-esposa do meu primo. A comemoração foi na casa da minha tia. Acho incrível como a tradição da ceia muda de uma cidade pra outra. Lá eles não conheciam rabanada!!!!! Corremos a cidade inteira atrás de pão pra rabanada e quase não conseguimos.
Fizemos a alegria da ceia do réveillon! Todo mundo amou. Eu e mamãe éramos imbatíveis nas rabanadas.

Viramos o ano e logo no primeiro dia viemos embora. Almoçamos na beira do rio São Francisco e logo seguimos para o aeroporto. Papai já nem tinha mais medo de avião. Nos despedimos prometendo voltar.

Exatamente um mês depois que voltamos, mamãe foi internada. Esse certamente será um dos natais mais complicados da vida. A saudade é enorme e quando a gente acha que diminuiu, ela vem com tudo e derruba a gente de surpresa. Mas vamos seguir.

domingo, 20 de julho de 2014

aos amigos.

Que ingrata eu seria por deixar passar esse dia sem falar aos meus. Cheguei a comentar com uns “não tenho paciência pra essas coisas”. Talvez o domingo e todo peso da carência que tem, misturado ao meu amor e gratidão, trouxe essa vontade. Nunca fui muito dessas de ter poucos e bons, tenho muitos e maravilhosos. Sem modéstia. E sei disso, principalmente, por poder ter contado com todos no momento que mais precisei.

Os de escola continuam até hoje, misturados com os amigos do bairro, da rua ou do prédio. Não nos vemos mais com tanta frequência, mas quando encontramos é como se esse intervalo não existisse. (Cliché, eu sei, mas verdade). Voltam as piadas, as risadas, as lembranças da professora burra, do outro que foi expulso de sala e das colas.

Os atuais se misturam. Há sete anos uma comunidade no orkut me fez encontrar muitos que hoje são como minha família. É muito difícil responder quando as pessoas perguntam como nos conhecemos. Dizer apenas “pela internet” parece muito raso por tanta coisa vivida. Além deles, vieram os agregados e algumas famílias que sempre me recebem e acolhem tão bem.

Da faculdade são poucos, mas aqueles que sei que estarão comigo por muito tempo. Um torcendo pela realização do outro. É tão prazeroso dizer que aquele conseguiu aquela vaga que queria tanto! Tem os de “herança”, aqueles mineiros queridos que continuam me recebendo tão bem que ocupam um pedaço enorme no meu coração. Os de trabalho, aqueles que a gente convive intensamente por tanto tempo e depois perde o contato, mas que preenchem uma lacuna enorme nas tantas histórias que passaram. E, ainda, aqueles que de tão amigos já foram promovidos a primos, tios e sobrinhos (mais conhecidos como minha família escolhida – já que a minha de verdade vive tão longe).

Para cada um de vocês um obrigada gigaaaaante! Recebi tanto carinho, tanto afeto, tanto abraço, tanto cuidado, tanto amor em dias tão difíceis desse ano, que nunca serei capaz de retribuir ou agradecer o suficiente. Só tenho a certeza de ter muita sorte por ter cada um de vocês ao meu lado.


Feliz dia dozamigo (serve pra amanhã também)! Agora toca o Reginaldo Rossi pra embalar a breguitude! 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

cento e vinte dias.

Em nenhum momento da vida imaginei ficar sem você, mãe. Claro que isso é algo que a gente sempre pensa que vai acontecer num futuro muito distante, que não consegue nem imaginar. Hoje completamos quatro meses sem a presença física uma da outra, mas é incrível como eu sei que você está sempre aqui comigo.

Esses cento e poucos dias parecem uma eternidade. Não há um dia que eu não lembre tudo que passamos naquelas semanas de fevereiro e março. Eu e papai jamais poderíamos prever que sobreviveríamos sem você por mais de um mês. Ele agora lava as roupas dele e faz o prato sozinho! Eu tento deixar a casa como você sempre gostou, mas meu quarto tá uma zona por não ter lugar pra guardar todas as minhas coisas. Eu vou dar um jeito nisso, prometo.

Sabe aquela tosse que eu tenho vez em quando? Então atacou um pouco e só escuto o papai falando lá da sala “ta tossindo muito, hein, filha”. Você responderia daquele jeito “deixa a menina tossir!”. Não estamos deixando louça na pia para o dia seguinte, nem garrafas de água vazias. A dona Cida esta fazendo faxina a cada quinze dias e vamos mantendo tudo nos “conformes”, como você gostava de dizer.

Nossa rotina não teve muita mudança nas coisas práticas. A diferença agora é que papai não tem compromisso e sou eu que saio todos os dias para trabalhar. Inclusive, mudei de trabalho e queria muito que você estivesse aqui pra ver o quanto eu tô feliz por estar em uma área que eu sempre quis! Aliás, eu sei que cê ta vendo, né. Todos os dias o papai me busca no ponto de ônibus e voltamos juntos para casa. Uma vez por semana passamos no mercado e no caminho pra casa ele sempre comenta “todos os dias a mamãe fazia esse caminho cheia de compras”. Pois é.

São quatro meses que parecem cinquenta, me pego sorrindo ao lembrar do seu sorriso em cada coisa fazíamos juntas. Acho que estamos fazendo tudo do jeitinho que você queria, com muita saudade, mas sem lágrimas, como você sempre pediu. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

03.06.1958

Hoje mamãe completaria 56 anos. Aprendi a gostar tanto de aniversários por causa dela. Mamãe sempre gostou de festas e comemorações. No período que ela ficou no hospital, já planejava como seria o aniversário dela desse ano. Imaginava ela carequinha, por conta da quimioterapia, mas sorridente, como sempre. A casa cheia de amigos e todos muito felizes por ela estar ali, firme e forte. Seria uma grande comemoração, era o que eu mais queria.

Todo ano mamãe passava meses pensando no que fazer no aniversário. No fim das contas não fazia nada e “descontava” no meu. Por ela que eu comemorava tanto. Um dos maiores sonhos de dona Eulalia era ter a casa cheia de filhos. Como não pôde, ela adorava que meus amigos estivessem sempre por perto. Reclamava, claro. Mas gostava. Todos sabem. Por isso festa de aniversário era sempre bem-vinda! Ta aí o melhor motivo pra casa cheia.

Estamos quase completando o terceiro mês sem ela. Todos os dias escorrem algumas lágrimas de saudade que logo são tomadas por um sorriso que surge simplesmente por lembrar o quanto tive uma mãe maravilhosa.  Nesse meu primeiro 03 de junho sem ela, percebi que as comemorações nunca mais serão do mesmo jeito, mas acho que consegui passar um dia feliz, como ela pediu que eu continuasse.


Hoje a melhor amiga dela postou essa foto. Nunca tinha me achado parecida com a mamãe, até então. Mas esse sorriso mostra muito bem nosso jeitinho igual. E como eu fiquei feliz com isso! Que essa semana ela receba muitos brindes de parabéns e felicitações, pois tenho certeza que é assim que ela quer ser lembrada.